Existe uma contradição frequente no comportamento de investidores experientes. Quanto maior o patrimônio e maior a quantidade de informação disponível, maior pode ser a sensação de que é preciso estar atento a cada nova oportunidade.
Uma ação que disparou. Um fundo que entregou um retorno excepcional. Uma nova classe de ativos. Uma oportunidade no exterior. A estratégia que “todo mundo” parece estar adotando.
Surge na mente o gatilho e a pergunta silenciosa : “Será que estou ficando para trás?”
Esse é um dos mecanismos por trás do FOMO — Fear of Missing Out, o medo de perder uma oportunidade que outros aparentemente estão aproveitando. Pesquisas recentes em economia comportamental mostram que o FOMO não é apenas uma expressão popular. Ele pode influenciar decisões financeiras ao combinar comparação social, expectativa de arrependimento e percepção de oportunidade perdida. Um estudo publicado na Finance Research Letters em 2024 mostra como o FOMO pode levar indivíduos a se afastarem da decisão que maximiza seu resultado esperado para evitar a sensação de ter ficado de fora.
E aqui está o problema.
O investimento que parece estar faltando na sua carteira pode não ser o investimento que falta para os seus objetivos.
Essa diferença é fundamental, uma carteira não deveria ser construída a partir das oportunidades que aparecem no mercado, mas a partir dos objetivos que precisam ser financiados ao longo da vida como aposentadoria, sucessão, educação dos filhos, preservação patrimonial.
Cada objetivo possui prazo, necessidade de liquidez e capacidade de assumir risco diferentes.É justamente essa lógica que está por trás da gestão de investimentos por objetivos: substituir a pergunta “qual investimento está performando melhor?” por perguntas mais importantes:
Para que este dinheiro está investido?
Quando ele será necessário?
Quanto risco posso assumir sem comprometer esse objetivo?
O CFA Institute destaca que a gestão por objetivos permite estruturar diferentes parcelas do patrimônio de acordo com cada finalidade, incorporando vieses comportamentais ao processo de alocação, tema que trataremos em outro artigo .
FOMO também pode aparecer em investidores sofisticados
Um estudo experimental publicado no Journal of Behavioral and Experimental Finance encontrou relação entre FOMO e a reação dos investidores diante de oportunidades percebidas como perdidas. Investidores com maior propensão ao FOMO apresentaram reações mais negativas quando foram impedidos de participar de uma operação, outro estudo recente, publicado na Finance Research Letters, construiu um índice global de FOMO utilizando dados do Google Trends e encontrou associação entre níveis elevados de FOMO e piores resultados de mercado, embora esse tipo de evidência deva ser interpretado como associação, e não como prova simples de causalidade.
Isso nos leva a uma reflexão importante:
o risco não está apenas em perder uma oportunidade , às vezes, o maior risco está em abandonar uma estratégia adequada para perseguir uma oportunidade que já chamou a atenção de todos.
Investir com propósito muda essa dinâmica
Quando o patrimônio é organizado por objetivos, cada investimento passa a ter uma função.
Uma parcela pode estar destinada à liquidez, outra à preservação patrimonial, Outra ao crescimento de longo prazo entre outros .Isso cria uma espécie de “barreira” contra decisões impulsivas.
Se um ativo dispara, a pergunta deixa de ser:
“Por que eu não estou nesse investimento?”
E passa a ser:
“Esse investimento melhora a probabilidade de eu atingir algum dos meus objetivos?”
Se a resposta for não, talvez não exista nada a fazer , e essa capacidade de não agir também é uma decisão de investimento.
A própria Vanguard reforça, em análises recentes sobre comportamento em períodos de volatilidade, a importância de permanecer ancorado aos objetivos de longo prazo e evitar mudanças motivadas exclusivamente pelos movimentos de curto prazo. Em dados sobre seus investidores durante o episódio de volatilidade geopolítica de 2026, a maioria permaneceu posicionada e, entre aqueles que negociaram, houve maior tendência a comprar a queda do que vender em pânico.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que estou perdendo?” mas O que eu preciso alcançar?
Porque uma carteira bem construída não precisa participar de todas as oportunidades, ela precisa participar das oportunidades que fazem sentido para a vida e para o patrimônio daquele investidor. No longo prazo a disciplina pode ser mais valiosa do que velocidade.
E ter um profissional qualificado ao lado não significa encontrar sempre o próximo investimento vencedor, significa, muitas vezes, ajudar o investidor a não abandonar uma estratégia coerente por causa daquilo que está chamando mais atenção naquele momento.
Investir com propósito é, também, saber do que você não precisa participar.
Quantas decisões de investimento você tomou porque faziam sentido para seus objetivos e quantas porque pareciam oportunidades que você não poderia perder?
Se quiser conversar sobre seus investimentos, seus objetivos ou simplesmente trocar ideias sobre o mercado, será um prazer tomar um café com você. Afinal, algumas das melhores decisões começam com uma boa conversa.
Sobre a autora
Sócia na Lifetime Investimentos, Private Banker com mais de 20 anos de experiência no relacionamento com clientes de alta renda. Administradora de empresas e especialista em Psicologia, Economista e Consumo, atua na construção de estratégias de investimentos que combinam visão patrimonial, conhecimento de mercado e compreensão do comportamento do investidor.
Referências utilizadas
- Kaddouhah, M. — An economic definition of Fear of Missing Out, Finance Research Letters.
- Potsaid, T.; Venkataraman, S. — Trading restrictions and investor reaction to non-gains, non-losses, and the fear of missing out, Journal of Behavioral and Experimental Finance.
- Global FOMO: The pulse of financial markets worldwide, Finance Research Letters, 2025.
- CFA Institute — materiais sobre Goals-Based Investing, Asset Allocation e vieses comportamentais.
- Vanguard — estudos recentes sobre comportamento do investidor durante períodos de volatilidade.

